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04/09/2026Notícia

Renegociações de dívidas rurais chegam a R$ 23,2 bilhões no RS

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Publicada em 04 de Setembro de 2026 às 08:42

As renegociações de crédito rural alcançaram R$ 23,2 bilhões no Rio Grande do Sul em junho, em um movimento que expõe a pressão financeira acumulada pelos produtores após sucessivas perdas climáticas. O avanço, porém, deixa em aberto quanto desse passivo foi efetivamente equacionado e quanto apenas teve seu pagamento transferido para os próximos anos.

Dados do Banco Central (BC) mostram que as renegociações integram um estoque de R$ 42,7 bilhões em crédito rural classificado como problemático no Estado. O conceito não significa necessariamente inadimplência: além das operações com parcelas vencidas, reúne dívidas prorrogadas e renegociadas.

O movimento ganhou força após os sucessivos eventos climáticos enfrentados pelo Rio Grande do Sul. Análise da série do BC feita pelo advogado Guilherme Caprara, especialista em reestruturação e insolvência e sócio fundador do MSC Advogados, aponta que o Estado tinha cerca de R$ 8 bilhões em crédito problemático antes das enchentes de 2024. O estoque ultrapassou R$ 20 bilhões após o desastre e chegou aos atuais R$ 42,7 bilhões.

Em 2024, o crescimento ocorreu principalmente pelas prorrogações feitas para enfrentar os efeitos das enchentes. Depois, as renegociações ganharam peso. Segundo Caprara, estavam próximas de R$ 5 bilhões no início daquele ano e agora alcançam os R$ 23,2 bilhões.

No País, o estoque de crédito rural problemático chegou a R$ 197,1 bilhões em junho. O Rio Grande do Sul concentra, portanto, mais de 20% do total nacional.

Para Caprara, o crescimento ajuda a identificar dificuldades financeiras antes de chegar a situações mais graves, como execuções ou pedidos de recuperação judicial. Ele ressalva, contudo, que uma operação renegociada não pode ser tratada como dívida inadimplente nem significa necessariamente que o produtor caminhe para a insolvência. “Uma renegociação pode resolver uma dificuldade temporária, como uma quebra de safra, mas também pode apenas adiar um problema estrutural”, afirma.

Os dados também não permitem determinar quanto dos R$ 23,2 bilhões renegociados corresponde a produtores que conseguirão retomar normalmente os pagamentos e quanto poderá voltar a apresentar dificuldades. Para Caprara, o avanço mostra maior necessidade de readequação das dívidas, mas não permite antecipar quantas operações poderão resultar em inadimplência ou recuperação judicial.

Indicadores da Serasa Experian acrescentam uma perspectiva importante. Embora o Rio Grande do Sul acumule elevado volume de operações renegociadas e prorrogadas, a inadimplência das pessoas físicas rurais permanece abaixo da média brasileira.

No quarto trimestre de 2025, o índice gaúcho era de 5,3%, ante 8,2% no País. No primeiro trimestre de 2026, subiu para 5,8%, enquanto a média nacional chegou a 8,8%. Mesmo com a piora, o Rio Grande do Sul ainda apresentava a menor taxa entre as unidades da Federação.

Para o gerente de dados agro da Serasa Experian, Frederico Poleto, os números mostram duas situações simultâneas. Existe pressão financeira sobre o produtor gaúcho, mas ela ainda não havia se transformado em dívidas vencidas por mais de 180 dias na mesma intensidade observada nacionalmente.

“Houve uma pressão financeira real, mas uma parte importante está sendo administrada por meio da reorganização das dívidas”, avalia Poleto. “O resultado final dependerá da capacidade de as próximas safras gerarem caixa suficiente para cumprir os novos cronogramas.”

Ele relaciona o crescimento das operações problemáticas à sequência de choques enfrentados pelo Estado: as enchentes de setembro de 2023, o evento extremo de abril e maio de 2024 e uma nova estiagem nos primeiros meses de 2025. No período, também foram adotadas diferentes medidas para prorrogar, renegociar ou financiar dívidas.

Essas medidas podem elevar inicialmente o estoque classificado pelo BC como problemático justamente porque reestruturam uma dificuldade financeira antes que ela se transforme em atraso prolongado.

Poleto ressalta que os indicadores do BC e da Serasa não podem ser comparados diretamente. O Banco Central mede, em reais, saldos de crédito rural em diferentes situações, enquanto a Serasa calcula a proporção de pessoas físicas rurais com dívidas vencidas há mais de 180 dias junto a bancos, cooperativas, agroindústrias, fornecedores de insumos e máquinas e outros credores ligados ao agro. “Os números são complementares, não reconciliáveis diretamente”, resume.

Fonte: jornaldocomercio.com/agro/2026/09/1262286-renegociacoes-de-dividas-rurais-chegam-a-rs-232-bilhoes-no-rs.html